quarta-feira, 8 de abril de 2009

Anairam e seu mundinho

Ela se vestiu como uma garotinha inocente e delicada. A camiseta rosa bebê com renda nas costas não deixava dúvida: ela não queria estar ali.
O jeito que penteava os cabelos louros, a maneira que se locomovia pela casa e a quantidade de perfume que ela usou denunciava uma leve perturbação. Os sapatos de mulher batiam acelerados no chão enquanto ela pegava o celular e a pasta.
- Pronto! - Com pressa, foi até sua bolsa e retirou a chave.
Ficou estática imaginando algo que - para nós - é impossivel saber. Piscou duas ou três vezes, largou a porta da cozinha aberta, despediu-se do cachorro e saiu. O alívio e a empolgação de sair de casa era algo alucinante. Ela mal podia conter as palpitações de seu próprio coração.
Enquanto olhava a movimentação do bairro e das pessoas que nele circulavam, os sentimentos que antes eram de prazer, deram espaço a uma tristeza há tempos venerada. O trajeto até a rua Belém foi de altos e baixos, até que chegou ao seu destino. Viu-se sozinha. Os amigos com quem havia marcado não apareceram.
Ficou mais cinco ou seis minutos. Observou o movimento da rua, queria esperar mas estava encabulada com o garçom do buteco da esquina, pois ela havia passado três vezes em frente ao estabelecimento, o que ocasionou desconfiança do garçom.
Foi embora. No caminho de volta, desceu na Av. Paes de Barros - ela sempre gostou dessa avenida. A lua estava cheia, a brisa fria batia no rosto cheio de sardas e ela tremia de frio.
Estava consumida por uma dor emocional que nem ela mesmo sabia de onde vinha. Andar pela avenida fazia com que ela pensasse na vida.
Todos os demônios presos, enjaulados querendo sair e ela enlouquecendo a cada suspiro. O inferno não durou mais que alguns minutos; quando chegou em casa colocou a chave em cima da mesa, tirou os sapatos de mulher, prendeu o cabelo e despiu-se do que não é.
Como sempre, desliga o pensamento de onde está, querendo estar em outro lugar.

[...]

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