Hoje eu não me levantei. Ontem, enquanto jantava como todos os dias - os mesmos dias entediantes e repetitivos - planejava a minha morte. Foi a morte mais feliz que tive pois, ao contrário do que se pensa, não aguentava mais viver.
Sempre achei que as pessoas tristes são mais bonitas. A boca comprimida pela dor, os olhos cheios de lagrimas e o corpo arqueado dão um ar teatral. A palidez e a falta de expressão no rosto da pobre alma desgraçada me causam cócegas.
Acordei morta, gelada pelo frio que fazia lá fora. Estava mais bonita do que nunca; pálida, com o olhar vago, a boca ressecada que esboçava um sorriso forçado. Não havia voz, como se minha alma ficasse com medo de meu corpo e tivesse saído para caminhar sozinha. Se perdeu. Eu me perdi naquela manhã. Meu corpo e mente desejavam, mesmo, um corpo sem alma. Estava desligada de tudo, de todos.
Eu não morri na carne, renasci no sentimento. Hoje eu sou a pessoa mais triste do mundo. Agradeço toda essa tristeza, toda essa dor sem causa que me dá essa visão tão poética de tudo.
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